A Cozinha de Frankfurt

Olhar, nos dias de hoje, para este projeto pode levar a alguns equívocos. Um deles seria enxergar ali uma solução banal e corriqueira, algo que se sana facilmente com a simples observação de sua data (1926). Naquela época, o entendimento de cozinha ainda estava carregado de conceitos muito antigos, alguns deles medievais, e remetia a ambientes muito amplos, demandantes de intensiva mão de obra.

Outro erro seria vê-la como o modelo de cozinha atualmente replicado à exaustão em apartamentos-commodity brasileiros pela produção das incorporadoras imobiliárias. Nada mais equivocado: o desenho lógico da Cozinha de Frankfurt tem poucos pontos em comum com as atuais produções disfuncionais e insuficientes desses inúmeros imóveis, além, talvez, de sua proporção de planta levemente parecida (enviesando um pouco o olhar nesse sentido).

A Cozinha de Frankfurt é uma preciosidade arquitetônica do racionalismo moderno. Seu projeto extremamente enxuto, funcional, eficiente e eficaz, desenvolvido por Ernst May e Margarete Schütte-Lihotzky, reduzia substancialmente o principal custo de reprodução de uma unidade habitacional (UH). Portanto, se tornou de imediato o pivô de viabilização da política habitacional denominado Nova Frankfurt, até hoje uma das mais importantes referências em programas habitacionais em todo o mundo.

Para se ter uma ideia do que isso significa, foram produzidas 15.000 UH pelo programa habitacional capitaneado por Ernst May entre 1925 e 1930, o que representava mais de 90% de todas as moradias produzidas na cidade de Frankfurt naquele período [1, p.166]. Isso não teria sido possível sem soluções eficientes de projeto (como essa cozinha).

Ainda que a comparação seja imperfeita, vale lembrar que a primeira iniciativa completamente estatal brasileira, da Fundação da Casa Popular (FCP), produziu em todo o território nacional (atualmente mais de 5.500 municípios), entre 1946 e 1964, apenas 18.132 unidades habitacionais. E mesmo a emblemática solução semi-pública dos IAPs não passou de 123.995 UH entre 1937 e 1964 [2]. Esses números trazem motivos de sobra para invejarmos a iniciativa de Frankfurt (uma única cidade).

Também é necessário situar historicamente esse projeto em relação às referências: o taylorismo e a administração científica estavam em voga. O racionalismo de estudo aprofundado de movimentos humanos para aumentar a produtividade na era de ouro da exuberância industrial chegava, com este projeto, à cozinha doméstica. Minimização de deslocamentos, planejamento de movimentos, utensílios facilmente à mão, eficiência espacial pela máxima produtividade num ambiente compacto são apenas alguns dos elementos que comprovam essa relação.

A solução dada pela Cozinha de Frankfurt é tão robusta e enxuta que se mantém como uma das mais importantes referências para o design de cozinhas até os dias atuais. E, ao que tudo indica, continuará sendo por muito tempo.

Cozinha de Frankfurt - reconstrução exibida no MAK Vienna
Cozinha de Frankfurt – reconstrução exibida no MAK Vienna

[1] FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo, Martins Fontes, 1997.

[2] FARAH, Marta Ferreira. Estado, previdência social e habitação. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo. FFLCH. São Paulo, 1983.

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